sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Antipolítica

Dia 24 foi publicado na Folha a crônica de Contardo Calligaris (italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e ensaísta. Ensinou estudos culturais na New School de Nova York e antropologia na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre a cultura e a modernidade.) "Antipolítica". A seguir encontra-se a transcrição da mesma retirada de http://blogdomicko.blogspot.com/2011/08/ed-lascar-antipolitica-contardo.html e gostaria de deixar a citação de Lao-Tse: "Governa melhor quem governa menos."

Certa vez, uma mulher me disse que não deixaria de gostar de mim, mesmo se eu perdesse o cabelo, engordasse absurdamente e mudasse de fé ou de lugar de residência. Mas ela deixou claro que, caso eu me tornasse um político, ela se separaria de mim, no ato. 
Essa mulher é brasileira, mas poderia ter sido italiana. Brasileiros e italianos compartilham, hoje, uma paixão antipolítica.A ideia antipolítica mais difusa é a convicção (recente na Itália e endêmica no Brasil) de que o exercício da política é indissociável da corrupção -com seu cortejo de alianças oportunistas, mentiras etc. Fora a ojeriza moral, a consequência dessa convicção é a seguinte: de repente, o único projeto republicano válido parece ser a luta contra os corruptos. Ou seja, no governo, os apetrechos da política (planos, visões ou competências) são inúteis, apenas precisamos de pessoas honestas.  
A antipolítica da corrupção cria uma nova unanimidade. Para o cidadão comum, ela é lisonjeira: se os políticos parecem ser todos corruptos é porque nós, na sociedade civil, devemos ser todos honestos, não é? Para os políticos, denunciar a corrupção de sua própria classe é mais fácil do que conceber e colocar em ato ideias sociais e econômicas inovadoras. Com isso, a antipolítica reconcilia a nação, as classes e os partidos: vivemos enfim numa comunidade de (todos) indignados contra os políticos (todos) corruptos.  
Na Itália, o Partido Comunista da época de Berlinguer (inclusive nas regiões que governava) era considerado, mesmo por seus adversários, como uma reserva ética. Os comunistas podiam ser acusados de comer criancinhas, mas ninguém imaginava que, uma vez no poder, eles seriam como os outros. Ora, a partir de 1991, quando o partido se desfez, as siglas nas quais ele confluiu (compostas cada vez mais de políticos profissionais e cada vez menos de militantes) foram partidos como os outros.
O caso do PT, no Brasil, não foi muito diferente. As alianças de governo e sobretudo o mensalão acabaram com a ideia de que o Partido dos Trabalhadores representasse uma reserva ética dentro da política. Conclusão: como quer a antipolítica, políticos são todos iguais e reserva ética só existe na sociedade civil. 
Quanto a mim, oscilo: acho que a arte de governar não deveria se resumir num trabalho de polícia, mas será que, hoje, é possível qualquer política sem um saneamento moral prévio?

A corrupção generalizada não é o único argumento da antipolítica. A desconfiança de discursos políticos fanfarrões e abstratos (que, ao longo do século 20, sacrificaram milhões) pede que eles sejam substituídos pelo cuidado com os problemas concretos, numa espécie de ativismo direto, sem projetos globais, sem representação e sem delegação. Aqui também a antipolítica ganha uma simpatia suprapartidária e interclassista.
Acabo de ler um conto de Piero Colaprico, "Arrivano i NAM", publicado pelo "Corriere della Sera", no qual ex-militantes da luta armada dos anos 1970 e 1980, tanto esquerdistas como fascistas de extrema direita, unem-se, hoje, para criar um grupo que organiza linchamentos e punições como no passado, só que contra alvos comuns, que não são mais inimigos ideológicos, mas pessoas que concretamente estragam a convivência civilizada de todos na cidade. 
Os NAR, Nuclei Armati Rivoluzionari, são assim substituídos pelos NAM, Nonni Armati per Milano, ou seja, os avós armados para Milão, vigilantes defensores da ordem e da justiça miúdas e concretas.
Concordando com a antipolítica, entre os NAR e os NAM, talvez eu prefira os avós, os NAM. Se hesito um pouco, é porque receio que, à força de cuidar apenas do concreto imediato, a gente acabe perdendo a capacidade de pensar mundos realmente diferentes. 
Em suma, não sei interpretar a antipolítica. Talvez ela seja o sinal de uma nova forma de domínio, que nos induz a aceitar nosso "sistema" e pedir apenas gestões mais honestas e mais concretas. Talvez, ao contrário, ela seja uma revolta contra a política tradicional, capaz, a longo prazo, de redefinir nossa visão do que é política. 
Questões. A Primavera Árabe me parece ser um evento político no sentido tradicional. Mas os jovens protestatórios do Chile e ainda mais os saqueadores de Londres foram o quê? Antipolíticos?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O retorno do jovem príncipe

Estava olhando alguns livros e encontre o livro abaixo.

A. G. Roemmers
Ficção

ISBN: 9788539002542

Lançamento: 05/09/2011

Formato: 16 x 23

112 páginas

Preço: R$ 22,90


Leia um trecho do livro em PDF
"Este livro nos faz lembrar tudo aquilo que não convém esquecer: o amor, a fraternidade, a educação, a família, os valores que são os alicerces das sociedades civilizadas e humanas." - Bruno d'Agay, descendente de Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe


Inspirado em O Pequeno Príncipe - clássico de Antoine de Saint-Exupéry lançado em 1943 em plena Segunda Guerra Mundial - o livro O Retorno do Jovem Príncipe é uma obra de ficção que fala do retorno do nobre já na adolescência à Terra. Com a mesma visão humanista e espiritual sobre o mundo, seus habitantes e os valores básicos que os sustentam, o poeta argentino A. G. Roemmers retoma a sutileza do personagem eternizado por Exupéry. Best-seller na Argentina, o lançamento será também publicado em mais de 15 países.

Ao viajar sozinho no vazio da Patagônia, um homem maduro encontra um adolescente desacordado e o socorre. Quando o rapaz acorda, o homem percebe que não se trata de um jovem qualquer, mas de um famoso príncipe que cresceu e resolveu revisitar o planeta Terra.

Os dois viajantes embarcam num diálogo denso que aborda as grandes questões existenciais. Assim, a viagem de carro se transforma em uma autêntica trajetória espiritual, que abrange a transição da inocência à maturidade, do cotidiano ao transcendente e da tristeza à alegria.

"Como tantos que leram O Pequeno Príncipe, eu também captei a simplicidade de sua mensagem e compartilhei a tristeza de Saint-Exupéry quando o herói-criança, que alcançara as profundezas de meu coração, foi obrigado a retornar a seu asteroide. Muitas vezes perguntei a mim mesmo, o que aconteceria a essa criança tão especial se continuasse a viver entre nós. Como seria sua adolescência? Conseguiria preservar a inocência de seu coração?", indaga o poeta argentino A. G. Roemmers.

Roemmers retoma no livro discussões éticas sobre a experiência humana e aborda temas ainda cruciais à humanidade, como guerras, crises econômicas, fome e consumismo. "Durante o percurso da viagem fictícia, o Jovem Príncipe pergunta se há muitos caminhos no planeta Terra e se não ocorre aos homens procurar no céu a orientação. Sempre há problemas e os caminhos para superá-los", afirma o autor, também influenciado pelo personagem em sua infância.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Saúde acima de tudo

Foi publicado hoje na Folha uma crônica maravilhosa escrita por Carlos Heitor Cony (membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no "Jornal do Brasil". É autor de 15 romances e diversas adaptações de clássicos.) e intitulada "Saúde acima de tudo" na qual aborda o triste funcionamento do serviço de saúde hoje. A baixo encontra-se transcrita a crônica.
Primeiro, foi um livro aterrador de Dino Buzzati, o mesmo de "O Deserto dos Tártaros", que lhe valeu a classificação de Kafka italiano. Mas seu maior sucesso, creio eu, foi "O Oitavo Andar". 
Numa história simples e terrível, um camarada encontra na rua um amigo médico que estranha a sua aparência meio doentia. Conversa vai, conversa vem, o médico recomenda que o amigo faça um exame de rotina, nada de grave, apenas para ver como vão as coisas.
O amigo aceita a sugestão, vai fazer os exames de rotina e é encaminhado para o oitavo andar do hospital cujo diretor era o médico seu amigo. Suspeita nenhuma, apenas certa palidez e, volta e meia, alguma insônia. 
No exame, o especialista manda fazer uma radiografia e descobre que há um sinal estranho no pulmão direito. Recomenda uma tomografia, cujo equipamento se localiza no sétimo andar do mesmo hospital.
Feito o novo exame, aparecem uns gânglios inflamados na região do pescoço e é pedido um novo exame, a ser feito no sexto andar, onde há um equipamento de última geração. Para a garantia de todos, o sujeito precisa ser internado. Nada grave, apenas uma garantia suplementar do hospital.
Feito o exame, descobrem a possibilidade de uma infecção sanguínea e o sujeito é transferido para o quinto andar, onde fará hemodiálise e transfusão. Para maior conforto e segurança, ele é transferido para o quarto andar, onde é submetido a uma biópsia e, mais tarde, já no terceiro andar, é operado de um nódulo suspeito de malignidade.
Recuperado da cirurgia, passa por uma avaliação acurada no segundo andar, onde contrai uma septicemia que o leva diretamente ao primeiro andar. Uma semana depois, já no primeiro andar, está numa UTI em estado terminal. Na segunda noite, um rabecão o espera no andar térreo para as providências de praxe.
Aí termina a ficção de Dino Buzzati. Na vida real, um jovem italiano, de 27 anos, sofre de uma estranha coceira nos pés. Não consegue dormir e procura o mais famoso dermatologista de Roma, que não pode atendê-lo devido a um congresso no Canadá, onde será o principal expoente. Apresenta-o ao seu assistente, que receita pós e pomadas, além de antibióticos. 
Não havendo resultados, convocam um japonês, o mais famoso acupunturista da Europa continental. Esfrega o rapaz com essências orientais e agulhas da Polinésia, tidas como as mais eficazes.
O rapaz não melhora. O dermatologista famoso retorna do Canadá e manda tomar cinco remédios alternados, de duas em duas horas, antes das refeições. À noite, depois de uma dose cavalar de tranquilizantes, o sujeito é pendurado no leito de cabeça para baixo, para que os pés fiquem o mais altos possível.
Não havendo resultados, é sugerida uma consulta ao mais famoso oncologista de Roma, que descobre um linfoma não Hodgkin e prescreve cinco sessões de quimioterapia à base do Mabthera, a última novidade para casos de câncer linfático. 
Numa das sessões, o coração do rapaz dá sinais de anomalia e o melhor cardiologista da península Ibérica, chamado às pressas (estava tratando um xeque da Arábia Saudita que havia sofrido um infarto), sugere um transplante da válvula mitral que não está funcionando bem. Uma serra especial, parecida com uma dessas motosserras que devastam a floresta amazônica, abre o peito do rapaz, afasta as costelas e introduz uma válvula mitral retirada de um porco, que tem as mesmas características da válvula original.
Nenhum dos procedimentos melhora a coceira furiosa do rapaz, que sempre andava e dormia de meias pretas, por superstição ou outra causa qualquer. Uma tarde, após o banho regular, a enfermeira não encontrou um par de meias pretas, foi ao ambulatório e trouxe meias brancas.
Apesar do peito aberto pela cirurgia que lhe arrebentou o osso esterno e lhe separou as costelas, o rapaz dormiu o melhor sono de sua vida. Nenhuma coceira nos pés. 
A faxineira que lhe trouxe o café na manhã seguinte reparou nas meias brancas e contou que também não podia botar meias pretas por causa de uma alergia que não a deixava dormir. Na realidade, nem dormia de calcinha, pois sentia coceiras lancinantes na região dos países baixos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

United States of Narcissism

de Daniel Altman (autor de "Outrageous Fortunes: The Twelve Surprising Trends That Will Reshape the Global Economy") publicado na Newsweek que aborda a ideologia que passamos as crianças atualmente e as possíveis consequências.
A seguir encontra-se uma cópia do mesmo.
Imagine a person who does what he wants, regardless of how it affects other people. He refuses to take responsibility for his own mistakes, and he believes he’s unbeatable at anything he undertakes, despite mounting evidence to the contrary. Sounds like a textbook narcissist, right? Well, these days, it also sounds a lot like the United States.
Narcissism is on the rise in the U.S. It’s likely to get worse before it gets better, and the economic consequences will likely be severe. Americans today are happy to spend rather than sacrifice, leaving future generations with the bill instead of accepting higher taxes themselves. They choose to keep bathing in a sea of cheap credit rather than cracking down on the practices and institutions that led to the financial crisis. And all along, they insist that their economic system is the best even while neglecting future investments in the very things that make a productive society: education, infrastructure, and scientific research.
So how did this happen? In their book, The Narcissism Epidemic, Jean M. Twenge and W. Keith Campbell find the origins of self-obsession in the 1960s, when people began to cast off societal constraints and expectations in favor of exploring their own human potential. This movement didn’t begin with a purely narcissistic slant, yet by the 1970s it had morphed into self-admiration, self-expression, and self-absorption. In the 1980s those qualities gave way to self-centeredness and self-indulgence, and it was all downhill from there.
Psychologists have been tracking narcissism through surveys of American college students since the late 1970s, and levels of it—often measured as a lack of empathy—have never been higher, according to Sara Konrath, an assistant professor at the University of Michigan’s Research Center for Group Dynamics. “If you look at the levers in society, almost all of them are pushing us towards narcissism,” she says. These levers go beyond Twitter feeds and Facebook pages, which offer endless opportunities for self-admiration. They also include advertising that tells consumers “You’re worth it” and reality-TV shows that turn regular people against each other in a battle for celebrity.
Unfortunately, the notion that any American can become a superhuman success is increasingly a myth. In recent decades Americans have encountered far more inequality and far less social mobility than their parents. But narcissism leads these same Americans to reject redistributive tax systems, since they’re sure they will succeed and have little empathy for those who don’t. They prefer to receive tax breaks rather than investing in opportunities for future generations (although they may make exceptions for their families, who often fall within their narcissistic spheres of concern).
As narcissism gathers momentum, American lawmakers seem to be making matters worse. “Politicians tend to encourage these shortsighted, selfish trends by promising people they can enjoy a better life without having to make sacrifices for it,” says Roy Baumeister, a professor of psychology at Florida State University.

This rhetoric—that Americans can have everything without having to pay for it—dates back to the Reagan era, when an economist named Arthur Laffer suggested that lowering tax rates would result in more revenue by spurring spending among businesses and consumers. He was wrong, but it’s clear from the budget debate in Washington that people still believe him.
Some media outlets try to debunk political rhetoric, but it has also become easier for Americans to ignore them—as any narcissist tends to ignore feedback that challenges his self-image. “With the fragmentation of media and the Internet, people can more and more easily just expose themselves to information and perspectives that don’t challenge their existing views,” says George Loewenstein, a professor of economics and psychology at Carnegie Mellon University.
If social mobility continues to erode, and narcissism increases, the nation will someday face tremendous economic and psychic costs. Crushing debts left by the Me Generation will fall upon a country ill prepared for its economic future. At the same time, Americans will suffer a moment of epic disillusionment as their narcissistic balloons finally burst. The only hope, write Twenge and Campbell, is that the next generation of parents will raise their kids to see beyond themselves.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Crise financeira

Quem está acompanhando as notícias dos últimos dias deve ter ouvido falar de uma nova "crise financeira".
Hoje queria apenas deixar aos leitores o seguinte questionamento: "Se a economia de mercado (neoliberalismo) é melhor que a economia de estado (keynesianismo) porque as bolsas de valores atuais (símbolos da economia de mercado) precisam de um mecanismo que interrompe as negociações "circuit breaker?"

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Slow Science

Tomei conhecimento esta semana do manifesto disponibilizado em http://slow-science.org/ e transcrevo a seguir:

THE SLOW SCIENCE MANIFESTO

We are scientists. We don’t blog. We don’t twitter. We take our time.
Don’t get us wrong—we do say yes to the accelerated science of the early 21st century. We say yes to the constant flow of peer-review journal publications and their impact; we say yes to science blogs and media & PR necessities; we say yes to increasing specialization and diversification in all disciplines. We also say yes to research feeding back into health care and future prosperity. All of us are in this game, too.
However, we maintain that this cannot be all. Science needs time to think. Science needs time to read, and time to fail. Science does not always know what it might be at right now. Science develops unsteadi­ly, with jerky moves and un­predict­able leaps forward—at the same time, however, it creeps about on a very slow time scale, for which there must be room and to which justice must be done.
Slow science was pretty much the only science conceivable for hundreds of years; today, we argue, it deserves revival and needs protection. Society should give scientists the time they need, but more importantly, scientists must take their time.
We do need time to think. We do need time to digest. We do need time to mis­understand each other, especially when fostering lost dialogue between humanities and natural sciences. We cannot continuously tell you what our science means; what it will be good for; because we simply don’t know yet. Science needs time.
Bear with us, while we think.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Consumidor tão bonzinho

Foi publicado hoje na Folha um artigo de Maria Inês Dolci (advogada formada pela USP com especialização em business, é especialista em direito do consumidor e coordenadora institucional da ProTeste Associação de Consumidores) intitulado "Consumidor tão bonzinho" abordando a questão de preços e qualidade de serviços atualmente no Brasil. A seguir encontra-se a integra do artigo retirado do blog "Conteúdo Livre":
Nunca imaginei, honestamente, que tantas coisas positivas acontecessem ao Brasil nas últimas décadas. Ou melhor, pensei que as coisas mudassem para melhor logo após o final da ditadura militar, mas os primeiros governos civis foram frustrantes, com resultados pífios.
Dentre as boas surpresas, destaco o sucesso no combate à inflação, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e suas consequências, a redução da pobreza e a ascensão das classes C e D.
Confesso que esperava muito mais das agências reguladoras, e que é triste ver os brasileiros ansiosos por bons serviços públicos, submetidos a apagões de energia, a aeroportos mal administrados, a telefonia móvel de má qualidade e acesso à banda larga idem.
A continuidade do poder absoluto do sistema financeiro é outra pedra no sapato do consumidor.
Nos últimos anos, com a valorização do real ante o dólar, e a ampliação dos consumidores com alguma renda, enfrentamos outro fenômeno preocupante, que poderá desfazer parte da inclusão social: o encarecimento do país.
Especialmente em São Paulo e em outras grandes cidades, pagamos preços absurdos, extorsivos, quase inacreditáveis, por um prato de macarrão, pelo estacionamento do automóvel, por serviços em geral.
Estamos longe de contar com uma boa distribuição de renda. Há mais empregos formais, mas somos, em média, muito mal remunerados. É verdade que um empregador que pague R$ 2.000 para um profissional destina outro tanto em impostos e taxas ao governo.
Há vários fatores que condicionam a elevação de preços: alta carga tributária; especulação livre e desenfreada; crescente oligopolização da economia nacional; falta de mobilização dos consumidores.
Esqueçamos, por um instante, os três primeiros itens. Afinal, dificilmente mudarão no curto prazo, ainda mais sem ações concretas dos três Poderes para que isso ocorra.
A mobilização, contudo, cabe a nós. Por que não brigamos pelos nossos direitos? Por que não usamos nosso poder de fogo, como consumidores organizados, para boicotar, por exemplo, as empresas de estacionamento que nos cobram, em São Paulo, R$ 30 por três horas de serviços?
Porque podemos pagar. E também para não quebrar nossa rotina de imobilismo. 
Somos capazes de sair às ruas para protestar contra o fraco desempenho da seleção brasileira em campo.
Mas não nos dignamos a comparecer a uma esporádica reunião de condomínio do prédio, que decidirá, entre outras coisas, o reajuste da mensalidade cobrada pelos serviços prestados no edifício em que moramos.
Enfrentamos uma longa espera em um restaurante da moda, pagamos muito caro por um prato mais ou menos, e por um serviço de má qualidade, sem nenhum questionamento.
Se boicotássemos aqueles que abusam dos preços -sem nenhum espírito dos antigos "fiscais do Sarney"- a situação mudaria. Mas, não, se há como pagar, que se pague.
Imóveis dobraram de preço. Nossos automóveis são caríssimos e não dispõem de itens de segurança para lá de básicos em países desenvolvidos. As tarifas de luz, de água, de telefone e de banda larga estão entre as mais salgadas do mundo.
Apesar disso, nem nos damos ao trabalho de avaliar, periodicamente, o trabalho dos políticos que elegemos. Na maioria das vezes, esquecemos os nomes dos candidatos nos quais votamos.
A cidade de São Paulo, uma das mais ricas do mundo, uma cornucópia de geração de tributos em todos os níveis de governo, está à matroca. Ruas esburacadas, trânsito infernal, transporte coletivo ruim, tudo isso permeado por apagões e por uma poluição insana, nos dias mais secos do inverno.
Assistimos a tudo como se fosse um filme ruim, de um Freddy Krueger que nos ameaça impunemente.
Ou nos mexemos, ou em breve tudo custará o dobro, porque quem cala, e aceita quieto, consente.
Como dizia uma personagem de humor, com sotaque norte-americano, "brasileiro tão bonzinho".
Pois somos.

domingo, 7 de agosto de 2011

O YouTube matou o passado

Ontem foi publicado na Folha um artigo, muito interessante, de autoria de Álvaro Pereira Júnior (graduado em química e jornalismo pela USP, com especialização em jornalismo científico pelo MIT. Trabalha no programa "Fantástico", na TV Globo.) intitulado "O YouTube matou o passado". Segue abaixo transcrição do mesmo retirado do blog "Conteúdo Livre".
Jovens de 14, 15 anos têm Renato Russo como ídolo. O líder da Legião Urbana morreu em 1996, mas os fãs de hoje talvez nem saibam, ou não se importem. 
Porque Russo está vivo na internet, mais precisamente nos 27,8 mil vídeos que são obtidos ao se digitar "Renato Russo" ou "Legião Urbana" no campo de buscas do YouTube.
Estão lá as coreografias espasmódicas, como as de Ian Curtis (do Joy Division). O visual florido igual ao de Morrissey (dos Smiths). O mico no especial de Natal do Chacrinha, com a banda toda de chapeuzinho de Papai Noel. As letras sem fim, simplórias, mas sinceras. Renato Russo, vivo em voz e rosto. E essa perenidade on-line não é exclusividade dele. É geral.
O YouTube matou o passado. Além de exterminar mistérios e mitos.
Os Beatles fizeram um show em cima de um prédio, em 1969. Loucura! Soava como lenda para a meninada do meu tempo. Esse tipo de sentimento acabou. As lendas juvenis se tornaram realidade palpável. Basta procurar na web por "Beatles rooftop concert". Show na íntegra, em alta definição.
Os Sex Pistols falando palavrões na TV inglesa, em 1976, num dos momentos mais marcantes da história do rock? A cena está na web. David Byrne em 1983, tenso, mordendo os lábios, incapaz de se comunicar com o apresentador David Letterman? Está on-line também. No século passado, um amigo dizia: "Das minhas dez bandas favoritas, nove eu nunca escutei". Explicando: só conhecíamos aqueles grupos no papel, em revistas e em jornais importados.
Fotos espetaculares, nomes impossivelmente sonoros: Alien Sex Fiend, Sex Gang Children, June Brides, Inca Babies. Que som faziam? Não tínhamos ideia, exceto uma vaga noção de que deveria ser "dark" (o que atualmente é chamado de gótico). Hoje, essa paixão misteriosa seria impensável. Haveria dezenas de clipes na rede. E os exemplos não ficam só na música. Na ciência, poucos encontros foram mais importantes do que a conferência Solvay, de 1927. Meses antes, rejeitando a física probabilística, Albert Einstein sentenciara: "Deus não joga dados".
Junto a ele, no congresso, debatiam intensamente Niels Bohr, Werner Heisenberg, Paul Dirac, Erwin Schrödinger, Wolfgang Pauli, Max Born e outros físicos estelares.
Um encontro monumental. Difícil acreditar que tivesse mesmo acontecido. Mas veja e creia: no YouTube, é "Solvay Physics Conference 1927". O vídeo foi visto quase 115 mil vezes. Antes disso, deve ter mofado por anos, esquecido em algum arquivo de universidade. Era passado. Virou presente.
Na política, acontece algo semelhante. Em 1960, Richard Nixon foi massacrado por John Kennedy em um debate presidencial. O velho escroque republicano, inseguro, suarento e mal vestido, viu desaparecerem suas últimas chances de vitória diante do democrata bonitão e bem ensaiado.
Cresci lendo sobre esse debate, que Paulo Francis citava com frequência aqui mesmo na Folha. Passei anos imaginando como teria sido. Hoje, não seria necessário. O programa está na íntegra no YouTube ("Kennedy-Nixon debate").
São evidentes os pontos positivos de tanta informação disponível. O rigor da comprovação factual. A fartura de fontes primárias. A falta de necessidade de intermediários ou epígonos: os originais estão todos à mão. Mas talvez haja um lado perverso desse "continuum". Onde não há passado, não há ruptura. Se tudo está vivo, nada pode ser superado. 
Um exemplo cristalino vem, de novo, da música. Na segunda metade dos anos 70, o punk inglês queria (e conseguiu) enterrar os dinossauros do rock grandioso e autoindulgente. Foi uma revolução, uma quebra de paradigma. A instalação de uma nova ordem (infelizmente, apenas musical).
Hoje, no entanto, é difícil pensar em um fenômeno do tipo. Nada vai embora de verdade. O leitor de estômago mais forte pode procurar no YouTube por "Emerson Lake Palmer Gnome" e rapidamente verá o trio progressivo assassinar a suíte para piano "Quadros de uma Exposição", do compositor clássico Modest Mussorgsky.
No YouTube, Emerson, Lake and Palmer estão tão vivos quanto os Sex Pistols. O que talvez explique a situação da música atual, onde tudo é válido, manso, todos se amam e não se enxerga conflito geracional. Tema para uma próxima coluna.

sábado, 6 de agosto de 2011

Web: 20 anos

It was twenty years ago today/ Tim Berners-Lee taught the world to play/ Although 20 years ago he would have sworn/ That there wouldn’t have been so much porn. That’s right – the world’s first website, a placeholder page written by Sir Berners-Lee way back on August 6, 1991 in the then-nascent Hypertext Mark-Up Language, is celebrating its 20th birthday today. And, on this important anniversary, we ask what hath the web wrought?
In the past two decades we’ve been given ecommerce and spam, we’ve torn down the music, news, and publishing industries, and we’ve LOLed at more CATS than we can count. We’ve seen empires rise and fall, the dissolution of the line between public and private, and the end of enforceable copyright. We’ve seen new modes of communication drive out unwanted regimes at home and abroad and we’ve heard the endless howl of a million voices calling out at once, most of them in comments on this site.
We’ve also seen lots of the aforementioned porn.
The original (can there be an original?) page is mirrored here and it’s a fascinating look at the seed crystal that catalyzed change to the world as we knew it in those heady pre-Internet days. Also porn.
Happy birthday, Internet Web. Here’s to another 20 happy, healthy years. [Fonte]

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

India Conquers the World

Um dado que me chamou a atenção nesta semana:
Even after the empire’s end, émigrés kept pouring out of India to seek better lives abroad—and with them they brought brains and a willingness to work hard. In the United States, where the Indian diaspora represents less than 1 percent of the population, its members account for roughly 13 percent of the graduate students at the country’s top universities. Overall, 67 percent of people of Indian descent living in America hold at least a bachelor’s degree, compared with 28 percent of the total population. And those statistics are echoed elsewhere in the world. In Canada, people of Indian descent are twice as likely to hold graduate or professional degrees. In Britain, some 40 percent of the medical students and doctors in the National Health Service are of Indian, Pakistani, or Bangladeshi origin. [Fonte]

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Afetividade e práticas pedagógicas

Na segunda-feira que passou, tive a oportunidade de participar de um encontro no Centro de Convenções da UNICAMP e prestigiar uma palestra do Professor Sérgio Antonio da Silva Leite (doutor em psicologia e Coerência, é a palavra que melhor expressa a relação que existe entre o pensamento e as ações do professor e psicólogo Sérgio Leite. Toda a sua trajetória profissional tem sido marcada por um grande envolvimento com a escola pública de qualidade, com a formação de psicólogos e professores que tenham fundamentalmente um compromisso social. Desde os tempos de aluno do antigo Colégio Estadual Culto à Ciência, de Campinas, o Prof. Sérgio tem uma história de militância social e política, orientada para a transformação da sociedade. Constituindo-se como um profissional, cuja crença é marcada pela busca de caminhos para transformar a sociedade, tem demonstrado que não é suficiente fazer a análise e a crítica, mas buscar caminhos de intervenção, preferencialmente coletivos, envolvendo cada vez mais e mais pessoas, mesmo quando isto ocorre em uma época em que a coletividade e a justiça social não são respeitadas, tal como acontecia no período da repressão dos direitos individuais, aqui no Brasil. Seu percurso de atuação profissional demonstra que as concepções teóricas cotejadas são passíveis de transformação, desde que acompanhem o caminhar histórico da revisão de concepções, o que ocorreu com ele em relação à conceituação de leitura e escrita, por exemplo. Formou-se em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 1971, fez Mestrado em Psicologia Experimental, em 1976 e, em 1980, concluiu o Doutorado em Psicologia, ambos na Universidade de São Paulo. Atualmente é docente do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Unicamp. A coerência, inicialmente referida, é demonstrada também na relação que estabelece com alunos - de graduação e pós - e orientandos, revelada, inclusive, na congruência com a temática sobre a qual tem atualmente se debruçado: a dimensão afetiva no processo ensino-aprendizagem. [Retirado de http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-85572004000100013&script=sci_arttext]).
No ano passado o professor Sérgio havia ministrado uma palestra com o mesmo tema para o programa "Aulas Magistrais" e esta encontra-se disponível em http://www.prg.unicamp.br/aulas/index.php/afetividade-e-praticas-pedagogicas/.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Heurísticas

Fragmento de um texto sobre heurísticas disponivel em www.zib.de/groetschel/students/Diplom-Berthold.pdf:
In the sense of this very general and vague definition, we all apply heuristic methods quite frequently. For example, if we want to buy a new PC, we decide on the model to chose and the shop to buy it, after having considered only a small part of the available information. Collecting and evaluating all offers would probably take too much time, such that our PC is already out of fashion, until we are sure, which one is the optimal for us. Instead of, we orientate ourselves on some criteria which seem reasonable to us: maybe we read some test reports, we ask a neighbor who is interested in computers and bought a new one just a month ago. We could also follow the salesman’s advice at our favorite computer shop who hopefully also wants to maximize our benefit and not merely his own profit.
A tradução utilizando o Google Translate segue abaixo:
No sentido desta definição muito geral e vaga, todos nós aplicar métodos heurísticos com bastante freqüência. Por exemplo, se quisermos comprar um PCnovo, nós decidir sobre o modelo a escolher ea loja para comprá-lo, após ter considerado apenas uma pequena parte da informação disponível. Recolha e avaliação de todas as ofertas provavelmente levaria muito tempo, de tal forma que o nosso PC já está fora de moda, até temos a certeza, qual é o ideal para nós. Em vez de, nós nos orientar em alguns critérios que nos parecem razoáveis​​: talvez ler alguns relatórios de ensaio, que pedir a um vizinho que está interessada emcomputadores e comprei um novo apenas um mês atrás. Nós também poderíamosseguir o conselho do vendedor, na nossa loja favorita computador que espero quetambém quer maximizar o nosso benefício e não apenas seu próprio lucro. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

The Flaw

Já a algum tempo eu escrevi sobre o documentário "Inside Job". Fiquei sabendo esta semana do documentário "The Flaw" que trata do mesmo assunto. Aqui vocês encontram o trailer deste documentário e aqui uma reportagem sobre o mesmo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A cidade: Nova York

Achei o texto "A cidade: Nova York" ("The city: New York", no original) de  Suketu Mehta, autor de "Maximum City: Bombay Lost and Found", um ótimo texto. A seguir encontra-se o mesmo que está disponível em http://www.newsweek.com/2011/05/15/in-nyc-suketu-mehta-sees-that-immigration-works.html


The writer E.B. White famously defined, in 1948, the three kinds of New Yorkers: the native, the commuter, and the person from elsewhere who comes in quest of something.Today there are three different kinds of New Yorkers: the people who act as if they were born here, who have a sense of entitlement about the city even if they arrived here after college; the people who are here and wish to be elsewhere, so toxic has it become for them; and the collection of virtual New Yorkers all over the world, in cities from Sarajevo to Santiago, who wish they were living in New York. These are the three New York states of mind, and what they have in common are longing and a quantity of delusion. It’s a city of dreamers and insomniacs.What makes New York special? New Yorkers are convinced of its specialness—but Toronto is more diverse, London is bigger, Washington is more politically powerful. So why does New York think it’s the capital of the world?Because it says so, comprende? You got a problem with that?From my window in Manhattan I can see the hole in the skyline where the World Trade Center used to be. I live in the crosshairs of every wacko and terrorist in the world. They knew what they were doing on 9/11 when two of the four planes they hijacked made their way to New York. When the crazies want to register their objections to America, Christianity, capitalism, dance music, whatever, they keep coming back to New York. We live in this city like a tongue between teeth. What happens if a dirty bomb goes off in Times Square? Nice place to visit, but I wouldn’t wanna die there.
But the terror threats do not stop people from wanting to move here from all over the planet: two out of three New Yorkers are immigrants or their children. As I was, when at 14, I moved from Bombay to Jackson Heights, in the borough of Queens, the most ethnically diverse neighborhood in the U.S.A. My neighbors were Indians and Pakistanis, Jews and Muslims, Haitians and Dominicans—people who had been killing each other just before they got on the plane. But here they live next door to their ancient enemies, and their kids date each other. They still may not like each other, but they do not attack and riot; they’ve agreed to suffer their neighbors. It’s been years since there was any major ethnic conflict in the city. Because no one ethnicity dominates, no one community gets blamed if there’s trouble or if the economy goes south.
People often explain the problems in European cities by citing unemployment or inequality. But New York today is one of the most unequal cities in America. In 2007, accord-ing to a study by the Fiscal Policy Institute, 1 percent of New Yorkers earned 45 percent of its income (in 1980 this single percent earned 12 percent of income). That works out to an average of $3.7 million a year for the city’s top 34,500 households. The average daily income of this group is greater than the average annual income of the city’s bottom 10 percent.
So why would people still come to try their luck in this tough place? Over the next couple of decades, the city’s population is slated to grow by another million, mostly immigrants. Is it opportunity or delusion that draws them?
They come because any newcomer stepping off the plane at JFK can find a place in the hierarchy of New York. If you look at a New York City restaurant, for example, the chef might be French, the people washing dishes might be Mexican, the hostess might be Russian, the taxi driver bringing the customers might be Pakistani, the owner might be British. They are not all equal. They earn different rates. But they work together, to get food to hungry people. It’s like the Hindu caste system: it’s not equitable, but everybody has a place.
What New York demonstrates, the lesson it has for its fellow rich cities such as Amsterdam or Paris or Tokyo, is this: immigration works. The city can use its immigrants, even the illegal ones. “Although they broke the law by illegally crossing our borders,” observed Mayor Michael Bloomberg, “our city’s economy would be a shell of itself had they not, and it would collapse if they were deported.” Each immigrant is an epic in the making. Enticed here by the founding myth of the city, he is seeking to escape from history, personal and political. For him, New York is the city of the second chance.

domingo, 12 de junho de 2011

O Show de Truman

Este fim de semana assisti o filme "O Show de Truman" e me fez pensar que, hoje, a vida de todos nós é um "show de Trumman".
Um feliz dia dos namorados a todos.

domingo, 29 de maio de 2011

Sobre a Pirataria

Já faz um tempo que não escrevo nada por vários motivos e principalmente pelas provas da faculdade. 
Nestes dias que não escrevo estava lendo "Gandhi: Autobiografia: Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade" de Mahatma Gandhi e " Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre" de Naomi Klein.
Hoje foi publicado na Folha de São Paulo, em Tendências/Debates, o seguinte artigo, "Pirateiem meus livros", escrito por Paulo Coelho (escritor e compositor, é membro da Academia Brasileira de Letras. É autor de, entre outros livros, "O Alquimista" e "A Bruxa de Portobello"):
Em meados do século 20, começaram a circular na antiga União Soviética vários livros mimeografados questionando o sistema político. Seus autores jamais ganharam um centavo de direitos autorais. Pelo contrário: foram perseguidos, desmoralizados na imprensa oficial, exilados para os famosos gulags na Sibéria. Mesmo assim, continuaram escrevendo.

Por quê? Porque precisavam dividir o que sentiam. Dos Evangelhos aos manifestos políticos, a literatura permitiu que ideias pudessem viajar e, eventualmente, transformar o mundo.

Nada contra ganhar dinheiro com livros: eu vivo disso. Mas o que ocorre no presente? A indústria se mobiliza para aprovar leis contra a "pirataria intelectual". Dependendo do país, o "pirata" -ou seja, aquele que está propagando arte na rede- poderá terminar na cadeia.

E eu com isso? Como autor, deveria estar defendendo a "propriedade intelectual". Mas não estou. Piratas do mundo, uni-vos e pirateiem tudo que escrevi!

A época jurássica, em que uma ideia tinha dono, desapareceu para sempre. Primeiro, porque tudo que o mundo faz é reciclar os mesmos quatro temas: uma história de amor a dois, um triângulo amoroso, a luta pelo poder e a narração de uma viagem. Segundo, porque quem escreve deseja ser lido -em um jornal, em um blog, em um panfleto, em um muro.

Quanto mais escutamos uma canção no rádio, mais temos vontade de comprar o CD. Isso funciona também para a literatura: quanto mais gente "piratear" um livro, melhor. Se gostou do começo, irá comprá-lo no dia seguinte -já que não há nada mais cansativo que ler longos textos em tela de computador.

1 - Algumas pessoas dirão: você é rico o bastante para permitir que seus textos sejam divulgados livremente. É verdade: sou rico. Mas foi a vontade de ganhar dinheiro que me levou a escrever?

Não. Minha família, meus professores, todos diziam que a profissão de escritor não tinha futuro. Comecei a escrever -e continuo escrevendo- porque me dá prazer e porque justifica minha existência. Se dinheiro fosse o motivo, já podia ter parado de escrever e de aturar as invariáveis críticas negativas.

2 - A indústria dirá: artistas não podem sobreviver se não forem pagos. A vantagem da internet é a divulgação gratuita do seu trabalho.

Em 1999, quando fui publicado pela primeira vez na Rússia (tiragem de 3.000 exemplares), o país logo enfrentou uma crise de fornecimento de papel. Por acaso, descobri uma edição "pirata" de "O Alquimista" e postei na minha página. Um ano depois, a crise já solucionada, eu vendia 10 mil cópias. Chegamos a 2002 com 1 milhão de cópias; hoje, tenho mais de 12 milhões de livros naquele país. Quando cruzei a Rússia de trem, encontrei várias pessoas que diziam ter tido o primeiro contato com meu trabalho por meio daquela cópia "pirata" na minha página.

Hoje, mantenho o "Pirate Coelho", colocando endereços (URLs) de livros meus que estão em sites de compartilhamento de arquivos. E minhas vendagens só fazem crescer -cerca de 140 milhões de exemplares no mundo.

Quando você come uma laranja, precisa voltar para comprar outra. Nesse caso, faz sentido cobrar no momento da venda do produto. No caso da arte, você não está comprando papel, tinta, pincel, tela ou notas musicais, mas, sim, a ideia que nasce da combinação desses produtos.

A "pirataria" é o seu primeiro contato com o trabalho do artista. Se a ideia for boa, você gostará de tê-la em sua casa; uma ideia consistente não precisa de proteção. O resto é ganância ou ignorância.
Na primeira oportunidade volto a escrever seguindo a "programação".

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Educação e o sistema penitenciário

Como ontem estava falando sobre liberdade achei que seria bom aproveitar o assunto e deixar mais uma pequena parte do documentário "Waiting for Superman". Nesta parte encontra-se uma comparação entre os custos de educacionais e do sistema penitenciário (é mais barato mandar alguém para a escola).

quarta-feira, 30 de março de 2011

[Especial] Document Freedom Day

Hoje gostaria de divulgar o Document Freeedom Day que está sendo "comemorado" hoje e convidar todos a adotar a suite LibreOffice (para os que não sabem o LibreOffice é um ramificação do OpenOffice gerida por uma fundação, The Document Foundation) como sua suite de escritório e o formato ODF como padrão.
Dentre os vários motivos para utilizar o LibreOffice e o formato ODF posso citar:

  1. Formato elaborado por um comitê internacional.
  2. Formato padronizado de acordo com normas nacionais (ABNT) e internacionais.
  3. Documentação a respeito do formato disponível a todos os interessados.
  4. Grande comunidade de desenvolvedores envolvidos com a evolução do formato.
  5. Interesse de manutenção de compatibilidade de versões antigas com as mais recentes.
Aproveitando a oportunidade gostaria também de incentivar todos a utilizarem softwares abertos.
No momento, meus grandes desafios são:

  • Conseguir fazer meus pais utilizarem alguma distribuição do Linux em conjunto com o LibreOffice. (Ainda não acredito que eles compraram a última versão do Microsoft Office.)
  • Conseguir fazer meu tio utilizar mais softwares abertos (o tempo que ele gasta procurando Keygen ou Crack de software proprietário daria para aprender a utilizar os softwares abertos correspondentes).
  • (Este último é o mais impossível dos três.) Minha mãe gosta de receber as atualizações do grupo Sintonia Elevada que sempre contem como anexo uma apresentação no formato pps (Power Point). Esse grupo deveria passar a utilizar HTML5 principalmente para poderem aumentar o número de leitores de suas atualizações.

terça-feira, 29 de março de 2011

Voar

O homem sempre teve um imenso desejo de poder voar.
Os primeiros relatos sobre algum objeto que fosse capaz de voar, pelo menos em projeto, são atribuidos a Leonardo da Vinci.
Já a invenção do avião é atribuida ao brasileiro Alberto Santos Dumont (que rivaliza o título com os Irmãos Wright, Orville Wright e Wilbur Wright).
Na época da Guerra Fria o governo dos Estados Unidos desenvolveu uma tecnologia para diminuir a visibilidade de aviões por radares e a mesma encontra-se presente no F-117 Nighthawk e no B-2 Spirit.
Mas o que queria divulgar hoje foi o desenvolvimento do SmartBird pela empresa alemã Festo.
Embora o SmartBird não tem muitas aplicações práticas hoje o conhecimento adquirido com a sua criação abre novas portas para a aviação. Abaixo um dos vídeos divulgados pela Festo.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Musashi

Hoje gostaria de compartilhar um trecho da obra "Musashi" de Eiji Yoshikawa publicada originalmente como folhetin no Asahi Shimbun a partir do ano de 1935. A tradução para o português possui os direitos reservado a Editora Estação Liberdade e as seguintes informações sobre a obra foram retiradas daqui:

Este romance épico baseado diretamente na história japonesa narra um período da vida do mais famoso samurai do Japão, que viveu presumivelmente entre 1584 e 1645. (...)
Eiji Yoshikawa dividiu sua obra em sete livros: A Terra, A Água, O Fogo, O Vento, O Céu, As Duas Forças e A Harmonia Final. Destes, os cinco primeiros são uma referência ao gorin, os cinco elementos básicos de que se compõe, segundo o Budismo, toda e qualquer matéria, ou ainda os ciclos por que passa o espírito humano para alcançar a perfeição, começando pela terra impura até atingir o estágio mais alto, o céu, ou segundo a concepção budista, a paz do nada, o nirvana.
Yoshikawa compõe portanto ao longo dessa longa obra uma magistral metáfora dos duros estágios por que tem de passar um guerreiro para alcançar a perfeição técnica que lhe permite lutar com uma espada em cada mão. De garoto selvagem e sanguinário, Musashi transforma-se aos poucos em guerreiro equilibrado, um espírito evoluído capaz de entender e amar tanto a esgrima quanto as artes, tornando-se assim o maior e mais sábio dos samurais.
Musashi é a obra literária mais vendida da história do Japão — mais de 120 milhões de exemplares em suas diversas edições, além de inúmeras versões cinematográficas ou televisivas. Seus principais personagens passaram a integrar o cotidiano, e a obra tornou-se livro de cabeceira e guia da arte de viver para gerações de japoneses.
Vamos agora a passagem que gostaria de compartilhar, antes um breve resumo do enredo no qual a passagem ocorre. 
Musashi estava em uma de suas várias andanças pelo Japão e tinha parado em uma hospedaria para pernoitar e pediu uma porção de macarrão sarraceno a uma funcionária do estabelecimento. Nesta ocasião ele faz a seguinte reflexão.
"Quando alguém queria comer um prato de macarrão sarraceno, tinha de semear o trigo na primavera, contemplar a floração durante todo o verão, colher o fruto no fim do outono e moer o trigo nas frias noites de inverno para enfim fazer o macarrão. Nas cidades, porém, bastava bater palmas e encomendá-lo: pouco mais de uma hora depois, o macarrão era servido."

domingo, 27 de março de 2011

A retidão

Até o momento melhor forma que conheço de definir "retidão" é pela seguinte história que circula na internet.
Gandhi certa vez foi procurado por uma mãe que levou o filhinho consigo, e lhe pediu: 
- Gandhi, este menino come muito açúcar. Já tentei de tudo e não consigo que ele pare com isso. Como ele gosta muito de você, com certeza irá obedecê-lo. Por favor, peça para que ele pare de comer açúcar! 
Gandhi pediu àquela mãe que voltasse uns 15 dias depois. 
Tempo decorrido a mãe o procura novamente e Gandhi olha o menino com bastante atenção e diz: 
- Pare de comer açúcar! 
O menino baixou a cabeça, mas fez sinal de que iria obedecê-lo. A mãe não entedeu nada daquilo e perguntou, super intrigada: 
- Gandhi, por que você não falou isso há 15 dias atrás? 
- É que há 15 dias atrás eu também comia açúcar!
 É possível encontrar esta história (em inglês) na seguinte página do Gandhi Memorial Center (Washington, D.D.): http://www.gandhimemorialcenter.org/for_children

sábado, 26 de março de 2011

[Especial] Hora do Planeta

Embora já esteja quase na hora, gostaria de divulgar a "Hora do Planeta".
O que é?A Hora do Planeta é um ato simbólico, promovido no mundo todo pela Rede WWF, no qual governos, empresas e a população demonstram a sua preocupação com o aquecimento global, apagando as suas luzes durante sessenta minutos.Quando?Sábado, dia 26 de março, das 20h30 às 21h30. Apague as luzes para ver um mundo melhor. Hora do Planeta 2011.Onde?No mundo todo e na sua cidade, empresa, casa... Em 2010, mais de um bilhão de pessoas em 4616 cidades, em 128 países, apagaram as luzes durante a Hora do Planeta. Em 2011, a mobilização será ainda maior.
A seguir o video-oficial da "Hora do Planeta" deste ano. 

E abaixo um outro vídeo que gostei.

Matrizes e o $R^n$

Antes de começar gostaria de dizer que fiz uma revisão no post da semana passada.
Vamos definir matrizes como um vetor de vetores (essa definição é muito utilizada na computação e para nós é mais que suficiente). Temos então que a matriz $M$ composta de dois vetores compostos de dois escalares cada é expresso por $$M = \left( \begin{array}{cc}
m_{11} & m_{12} \\
m_{21} & m_{22}
\end{array} \right)$$
Envolvendo matrizes temos três operações: soma, multiplicação por escalar e multiplicação por matriz. As duas primeiras são muito parecidos com as operações envolvendo matrizes apresentadas no neste post e vamos apenas enunciá-las a seguir:


  • Soma: 
$$ M + N =  \left( \begin{array}{cc} m_{11} & m_{12} \\ m_{21} & m_{22} \end{array} \right) + \left( \begin{array}{cc} n_{11} & n_{12} \\ n_{21} & n_{22} \end{array} \right)  =  \left( \begin{array}{cc} m_{11} + n_{11} & m_{12} + n_{12} \\ m_{21} + n_{21} & m_{22} + n_{22} \end{array} \right) $$
  • Multiplação por escalar
$$ aM = a \left( \begin{array}{cc} m_{11} & m_{12} \\ m_{21} & m_{22} \end{array} \right) =  \left( \begin{array}{cc} a m_{11} & a m_{12} \\ a m_{21} & a m_{22} \end{array} \right) $$
Já a multiplicação por matriz pode ser resumida como o produto interno entre os vetores linha da primeira matriz e os vetores coluna da segunda matriz, isto é, $$M \times N = \left( \begin{array}{c} m_1^T \\ m_2^T \end{array} \right) \times \left( \begin{array}{cc} n_1 & n_2 \end{array} \right) = \left( \begin{array}{cc} <m_1^T, n_1> & <m_1^T, n_2> \\ <m_2^T, n_1> & m_2^T, n_2> \end{array} \right)$$
Vamos então ao exemplo (continuando com o chapati).
Suponhamos agora que além do chapati apresentado neste post também vamos fazer substituindo a farinha de trigo por farinha de trigo integral.
Suponhamos então que $(1,0,0)$, $(0,1,0)$ e $(0,0,1)$ correspondam respectivamente a uma unidade de farinha de trigo, uma unidade de água morna e uma unidade de farinha de trigo integral. Temos então que o chapati é representado por $(2, \frac{3}{4},0)$ e o chapati integral por $(0, \frac{3}{4}, 2)$. Podemos ainda utilizar uma matriz para representar os chapatis $$\left( \begin{array}{ccc} 2 & \frac{3}{4} & 0 \\ 0 & \frac{3}{4} & 2 \end{array} \right)$$ onde a primeira linha representa o chapati e a segunda o chapati integral.
Se desejar-mos saber qual o peso do chapati e do chapati integral podemos utilizar o produto por matriz abaixo $$\left( \begin{array}{ccc} 2 & \frac{3}{4} & 0 \\ 0 & \frac{3}{4} & 2 \end{array} \right) \times \left( \begin{array}{c} 1  \\ 1 \\ 1 \end{array} \right) = \left( \begin{array}{c} \frac{11}{4}  \\ \frac{11}{4} \end{array} \right) $$
onde a primeira linha da resposta corresponde ao peso do chapati e a segunda linha ao peso do chapati integral.